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Curta Partilha, Curta Opinião

05
Jan20

Explorar o mito dos 10%

Certamente já ouvimos todos falar de uma até bastante eloquente o seguinte: "só usamos 10% do nosso cérebro, imaginem quando descobrirem o que podemos fazer com os outros 90%". De uma forma categória e também eloquente digo: é um mito. Não se sabe muito bem a fonte inicial da propagação deste mito, mas é um facto que observamos na literatura alguns dados que foram sendo publicados com a apresentação desta ideia. Iniciamos em 1907 com William James num artigo publicado na Science, posteriormente citado em 1936 por Dale Carnegie's. Paralelamente coexistiu em alguns momentos a ideia de que os neurónios apenas constituem apenas 10% de todas as células do cérebro. Adicionalmente, temos a propagação destas ideias fantasiosas pela televisão, séries, documentários, revistas e filmes que ajudam a que um mito se multiplique como uma verdade (infundada). Infelizmente, toda esta argumentação é sustentada em nada, ou melhor, é sustentada numa "simples" falta de informação. Por conseguinte, vamos a factos:

-  Técnicas de observação do cérebro como o PET (positron emission tomography) ou o fMRI (functional magnetic resonance imaging) mostram que a maioria do cérebro não está em descanso. Ao longo dos nossos dias, cada parte do nosso cérebro é usada dependendo das diferentes atividades que vamos realizando.

De uma forma sucinta, importa refletirmos ainda sobre as seguintes ideias que nos levam a respostas esclarecedoras:

- se só usamos 10% do nosso cérebro, então o dano causado a determinadas zonas não deviam ter nenhum efeito. A neurologia em nenhum momento observa isso.

- de uma perspetiva evolutiva, é altamente improvável que tenhamos guardado ali um lugar para os tais 90% e que só tenhamos usado 10%.

- não só o PET, o fMRI mas também técnicas como o CT (computed tomography), mostram que mesmo a dormir não existem áreas que estão "desligadas"

- uma ideia simples: neurónios que não são usados, têm tendência a morrer.

Este é daqueles grandes mitos que muito para além de ouvirmos simplesmente o que os cientistas dizem sobre o mesmo, quase que basta só (não suficiente) refletirmos sobre algumas permissas da nossa existência.

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