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Curta Partilha, Curta Opinião

08
Jan20

O que faz o veneno é a dose!

Hoje em dia vão surgindo inúmeras questões que subjazem à dicotomia químico versus natural, especialmente prorrogada pelos adeptos de um estilo de vida alternativo, diabolizando certos aspetos relacionados com estes conceitos. As várias petições para a abolição do Monóxido de di-hidrogénio (MDH) são um exemplo disso, onde as pessoas basicamente proibiam, sem mais nem menos, a água. De repente lembraram-se de inventar um nome complicado para a coisa (como fazem na maior parte das vezes) quando sabemos perfeitamente que esse MDH é composto por um átomo de oxigénio e dois átomos de hidrogénio (cheguem lá sozinhos). Infelizmente, assim são as campanhas de diabolização e de baixíssima literacia científica que percorrem muitas frações da população. Um outro exemplo é a grande campanha de medo que prolifera sobre os rastos dos aviões (supostamente libertações enormes de químicos nocivos, quando tudo pode ser simplesmente explicado segundo leis da física e da química).

Vamos a passos simples de compreensão? 

O termo químico pode ser definido em algo artificial ou sintetizado e constitui-se como um conjunto de átomos ou moléculas. O facto dos produtos serem chamados de "naturais", não quer dizer que sejam desprovidos de químicos. Vejamos: espécies de cogumelos; plantas medicinais como a dedaleira; a ricina; ou a toxina botulínica da qual se obtém o botox. Ou seja, a forma simples como se apresenta esta distinção entre químico e natural, não faz sentido e nem é suficiente para realizar qualquer julgamento.

Querem mais? Se pegarmos na definição básica que apresentei de "químico" chego à seguinte conclusão:  não há nada na natureza que não seja constituído por átomos e moléculas, ou seja, são inevitavelmente elementos químicos. Uma pessoa quando pensa que pode "abusar" do tratamento "natural" está redondamente enganada. Estes mesmos produtos ditos naturais têm princípios ativos que são substâncias químicas que provocam efeitos e cuja dose para além do recomendado pode ser tóxica. Nota: é claro que aqui já nem incluimos o Oscilococcinum feito de água e açucar. Com tantas diluições já nem se discute aqui a sua naturalidade!

E para quem considera que a medicina está de costas voltadas para o estudo dos benefícios das plantas medicinais, peguemos no exemplo da casca do salgueiro que é profundamente prejudicial para o estômago, apesar de analgésica e anti-inflamatória. Os cientistas acabaram por pegar no seu princípio ativo (ácido salicílico) e isolou o composto transformando-o em ácido acetilsalicílico com muito menos efeitos secundários. Espantem-se, foi assim que nasceu a aspirina que é só um dos medicamentos mais utilizados do mundo.

As substâncias químicas estão presentes em toda a parte. O que nos interessa saber é qual é a substância e qual a quantidade. Daí o título deste artigo se chamar: o que faz oveneno é a dose. Qualquer que seja a substância, tem o seu potencial letal. Umas substância são mortais com pequeníssimas quantidades, outras precisam de quilogramas para atingir essa dose letal. 

Ideia: nem tudo o que é apresentado como "natural" é necessariamente mais seguro. Por exemplo, os suplementos de amigdalina (substância presente nos caroços dos pessêgos e ou em algumas plantas - nota: promovida por "curas naturais") sujeitam o corpo a altas doses da substância que podem levar a intoxicação e entre outros efeitos secundários graves. Esta mesma amigdalina apesar de estar presente em alimentos, encontra-se em doses baixas e por isso é considerada uma ingestão saudável. Embora estes individíduos promotores apresentem ambiciosos objetivos (e.g., cura ou abrandamento de questões cancerígenas), os estudos cientificamente orientados falham consecutivamente nas replicações. Este é apenas um exemplo. A propagação destas ideologias podem formar verdadeiros casos de saúde pública, tendo em conta que as pessoas estão a agir de uma forma deliberada e não consciente e que na grande e largíssima maioria dos casos estas permissas apresentadas por naturalistas só não curam como realmente podem ser perigosas.

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