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Curta Partilha, Curta Opinião

24
Fev20

TPC's? Sim ou não?

Há uns tempos li um artigo muito conhecido do Psicólogo Eduardo Sá que se intitula de 'Deixem os trabalhos de casa em paz', onde apesar de em alguns momentos ser um texto demasiado hiperbolizante, concordo com a caracterização que apresenta em relação ao nosso ensino educativo: mais amigo do reproduzir e do repetir do que do recriar e do repensar;  aulas, sobretudo, expositivas; "comboios de conteúdos" expostos sem espaço para os conversar, sem desenvolver a curiosidade ou o espírito crítico.

Estou de acordo e considero que a versão clássica dos trabalhos de casa está extremamente desgastada (mandar - fazer - repetir; mandar - fazer - repetir) e o aluno também sente isso. Concordo ainda com a parte da necessidade reinvenção deste sistema de TPC's. A investigação continua a relatar que a marcação e a realização dos trabalhos para casa tem EFEITOS POSITIVOS no RENDIMENTO ESCOLAR (o tal modelo clássico não é totalmente ineficaz). No entanto, estes efeitos triplicam quando os professores dedicam tempo a avaliá-los, a classificá-los, a corrigí-los e a fazer comentários específicos sobre o que melhorar, bem como a discutir as várias soluções. Estes trabalhos de casa permanecem eficazes mesmo nos alunos que frequentam o ensino secundário. No entanto, são necessários mais pilares do que aqueles que existem neste momento, como complementariedade a uma tarefa que não pode ser predominantemente vista como uma "seca", uma "perda de tempo", em suma, um momento entediante diário. Outro ponto relevante é a questão da quantidade dos TPC's (quantos mais, melhor - ERRADO!). Neste âmbito, a qualidade é tão importante como a quantidade, com a ligação entre os conteúdos das aulas e as capacidades dos alunos a ser também muito preponderante. No sentido da reinvenção, a receita que nos é dada pela investigação é a seguinte:

- os professores marcam, corrigem e fazem comentários (realçar o papel importante do feedback que é dado - reforçar o que foi feito corretamente e voltar a ensinar o que está errado)

- os pais verificarem se os filhos fazem

- o aluno realizá-los

Mas como observamos em vários ramos profissionais, as conceções teóricas (mais recentes, atualizadas e com fundamento científico) são uma coisa, as práticas em si são outras. E sim, sei perfeitamente que a organização do sistema de ensino atual não permite o "tempo" que todos estes processos levam na sua operacionalização. Enquanto isso, continuaremos sempre a chover num molhado esquisito, e a optar por estratégias e métodos cada vez mais desgastados e ineficientes.

TPC's? Sim. Mas, mais uma vez, o segredo está na forma.

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16
Fev20

Eutanásia consensual?

https://www.rtp.pt/noticias/pais/conselho-de-etica-medica-da-nota-negativa-as-propostas-politicas-sobre-a-eutanasia_a1204892
Esta é uma notícia muito importante no meio desta discussão sobre a Eutanásia que resultou na apresentação de vários projetos (nota: uns já estavam feitos, outros foram feitos à pressa porque nem sequer constavam nos programas políticos). É preciso que se diga o seguinte – estes projetos não são suficientemente sólidos e consistentes por todas as questões que continuam a levantar, sejam elas de carís legal, moral, ético ou deontológico (para os médicos e para os pacientes também). Querem votar em algo desta natureza sem considerar uma discussão alargada? É assim tão fácil e leviano decidir sobre a Eutanásia e tudo o que a abrange? É assim tão fácil apresentar uns projetos cheios de inconsistências, falta de rigor e inúmeras indefinições, e mesmo assim vamos votar mas é nisto e arrumar com esta velha questão? Proponho apenas pensarmos sobre este tema de acordo com um programa muito conhecido e cujo nome se apresenta com uma forma interrogativa: e se fosse consigo? E se fosse uma mãe, um pai, um/a irmão/a a pedir para acabar com a vida, para desaparecer deste mundo, para ir para um local onde já não o pudéssemos ver, tocar, cheirar ou simplesmente estar perto até ao último fólego, até ao último segundo. Será que as opiniões cheias de racionalidade (e ideologia), continuarão igualmente tão consistentes comparadas com as análises que fazemos da situação no seu global? Pois, também não sei muito bem responder a esta questão. Contudo, considero sim que a discussão não deveria de ser sobre a Eutanásia, mas sim sobre os Cuidados Paliativos em Portugal – debruçarei-me-ei sobre os mesmo mais a diante.

Muito resumidamente, eis o que se pretende: primeiro, quer-se tornar despenalizável a ajuda ao suicídio e a eutanásia ativa quando esta estiver a ser pratica por um médico; e em segundo, legalizar a indução de morte a quem a solicita sobre determinadas condições clínicas.  

Sendo que é um tema em que os argumentos se dividem, vou tentar esmiuçar aquilo que está a ser considerado e expor ao mesmo tempo o que deve ser profundamente interrogado, refletido e analisado.

Os projetos centram-se essencialmente sobre o respeito da autonomia e o reconhecimento da mesma. Neste ponto, deverão as decisões relacionadas com a saúde serem substanciadas numa liberdade absoluta? Onde pára a responsabilidade moral do Estado para com os cidadãos? Onde pára também o juízo que o doente faz sobre a possibilidade ou não de existir um alívio para o seu sofrimento e deste modo legitimar então a sua decisão? Parece também que aqui a morte é apresentada como a resposta-chave e única para o sofrimento. O ato de matar e/ou de auxílio ao suicídio por terceiros justificam-se aqui na base da pessoa decidir e ser autónomo nessa decisão. Este pedido não estará perigosamente a ser colocado ao mesmo nível das recusas de tratamento e abandonos do mesmo, por exemplo? O Estado não deverá promover as boas práticas clínicas e científicas e prestar tais serviços com a máxima de qualidade? Onde vai parar o investimento (escasso e pobre) nas redes de Cuidados Paliativos? Vão acabar? Ou tornar-se-ão menos ativas com a legalização destas práticas? Eu sou defensor acérrimo destes serviços altamente eficazes e eficientes nas questões da dor e do sofrimento profundo. Aquilo que se verifica é que estas pessoas deixam geralmente de querer recorrer à morte quando lhes é prestado este serviço. Mesmo no caso limite da sedação terminal, nunca em momento algum se visa acabar com a vida de alguém, mas sim permitir-lhe o alívio do sofrimento. Estamos a ver esta discussão em jogo? Que mecanismos sociais estão e podem estar ao dispor de todas estas pessoas? Existem? E se existem, qual a sua dimensão? São suficientes? Nem todos têm acesso? Porquê? Podemos também questionar se realmente esta fase terminal da vida já não é digna de ser vivida. Atualmente existem 79 equipas de cuidados paliativos em Portugal (4/4 com gestão pública e ¼ com gestão privada, com a maioria a ter acordos com o SNS), 32 unidades de internamento (metade sob gestão privada), 70 hospitais com apoio intra-hospitalar por parte destas equipas e 26 equipas de cuidados paliativos domiciliários. Os relatórios dos profissionais têm apontado sempre o mesmo: assimetrias na cobertura destas cuidados; inexistência de cuidados paliativos domiciliários em mais de metade das regiões; metade das unidades de internamento sob gestão privada. A desigualdade no acesso a determinados cuidados é algo que devia ser muito mais discutido diaramente do que qualquer outro assunto neste âmbito. As iniquidades em serviços que podem proporcionar qualidade de vida mesmo numa fase final não se discutem? Passa a ser um dever do Estado regular pedidos de morte?

Vamos voltar à questão da autonomia e ver que ninguém ainda objetivou de forma inequívoca o seguinte: como é que vamos discernir sobre a capacidade daquela pessoa para exercer livremente a sua autonomia? As propostas abordam a questão meramente legal (exemplo: a idade; a inabilitação). Isto expressa por si só uma autonomia fundamentada para pedir a morte? Em muitos casos não existirá uma enorme dificuldade em definir a comunicação destes doentes com casos de patologias fatais? Como funcionará a aplicação deste exercício na valorização ou não desta comunicação?

Por último, a questão relacionada com a intervenção central por parte do médico, quando no seu Código Ético e Deontológico não permite realizar este tipo de intervenções, pois violam princípios chave da sua prática. Passaria a ser uma obrigação desta classe profissional? O Juramento de Hipócrates postula “não darei veneno a ninguém, mesmo que mo peça, nem lhe sugerirei essa possibilidade”.

Fechando este raciocínio, dizer que considero que qualquer que seja a decisão que se tomará (tendo em conta que as pessoas estão mesmo convictas que é possível tomar uma decisão boa e consensual), esta não deverá NUNCA colocar em causa o Serviço Nacional de Saúde. É preciso ter em conta que o debate deste tipo de questões envolvem tomadas de posição mais emotivas, menos sérias e menos racionais. A discussão não deve ser breve nem leviana, nem baseada em meia dúzia de projetos e muito menos em ideologias e pressupostos subdesenvolvidos. Mas de uma coisa eu tenho quase a certeza: o consenso nesta matéria é inatingível.

Nota final: pessoalmente sou favorável a uma despenalização com cabeça, tronco e membros bem definidos.

 

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12
Fev20

Auto-qualificados?

Uma coisa que me dói profundamente: “ai, eu no meu local de trabalho também sou psicólogo/a”. É quase como eu conseguir abrir um programa no meu computador e dizer que sou informático. Ou então eu dizer ao meu amigo para tomar um Cêgripe para a constipação (ele ficou bem) e já sou meio médico. Simples? Não acho. Aquilo que hoje se vai observando é uma proliferação de pessoas a desempenhar determinadas funções para as quais não têm a mínima qualificação e, por isso, nem sequer podiam estar a praticar o que quer que seja. E sim, não vale simplesmente dizer que percebe e que tirou um curso de 20 horas ao fim de semana. E sim, nem todos se podem auto-intitular de Psicólogos ou sequer Psicoterapeutas, ou sequer fazer avaliação psicológica, ou sequer tratar a ansiedade ou sequer tratar a depressão ou sequer perceber do que é a ciência ou sequer [inserir tudo o que esteja relacionado com práticas interventivas no âmbito de Saúde Mental e na promoção da mesma]. Esta declaração do Bastonário da Ordem dos Psicólogos relembra que no dia 15 de setembro de 2016 foi aprovado em conselho de ministros uma coisa muito importante chamada de Ato Psicológico. Passo a citar alguns pontos para uma melhor compreensão deste conceito:

  1. Constitui um ato psicológico toda a atividade de avaliação e diagnóstico, análise, prescrição e intervenção psicológica ou psicoterapêutica relativas a indivíduos, grupos, organizações e comunidades;

 

  1. A realização do ato psicológico é da competência exclusiva dos membros efetivos ou de membros estagiários da Ordem dos Psicólogos Portugueses;

 

  1. A avaliação psicológica corresponde a um processo compreensivo, que abrange diferentes áreas e que inclui os procedimentos de construção e aplicação de protocolo de avaliação, a elaboração de relatórios de avaliação e a comunicação dos respetivos resultados. Nota: A avaliação psicológica é um ato exclusivo da Psicologia e um elemento distintivo da autonomia técnica dos/as psicólogos/as relativamente a outros profissionais.

 

  1. A intervenção psicológica inclui atividades de promoção e prevenção, bem como a intervenção psicológica específica aos diversos contextos;

 

  1. Elaboração de pareceres no âmbito da psicologia, e toda a atividade de supervisão de atos psicológicos, incluindo os desenvolvidos no contexto da função docente e de investigação;

 

  1. A realização de atos psicológicos pode exigir especialização própria, a desenvolver no seio da formação pós-graduada ou profissional, competindo à Ordem a definição da formação requerida;

 

  1. Ao psicólogo é reconhecida autonomia técnica e científica no diagnóstico, na prescrição e na execução de todas as atividades inerentes ao ato psicológico acima descrito.

 

Ainda e a propósito dos profissionais não-qualificados que muitas vezes se auto-apelidam de “psicoterapeutas”, convém anexar a importante pronunciação realizada pela Ordem dos Médicos e a Ordem dos Psicólogos: https://ordemdosmedicos.pt/riscos-da-atividade-de-psicoterapia-para-a-saude-publica-por-profissionais-nao-qualificados/

 

Em síntese, diria: “cada macaco no seu galho”. Mas no mundo real (e infelizmente) nem todos os profissionais (sejam da area da psicologia ou outra área qualquer) se regem por Códigos Éticos e Deontológicos.

E acabando a citar o Bastonário da OPP: “a intervenção psicológica feita por pessoas sem formação tem riscos para a saúde pública”. http://www.ensino.eu/ensino-magazine/janeiro-2020/entrevista/aintervencaopsicologicafeitaporpessoassemformacaotemriscosparaasaudepublica.aspx

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