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Curta Partilha, Curta Opinião

09
Jan20

As trilhas da conspiração

Uma das teorias de conspiração com inscrição garantida nas mais absurdas de sempre é a associação das trilhas brancas deixadas no céu pelos aviões. Há quem se pronuncie sobre a questão como sendo uma libertação de químicos que são largados de forma deliberada com diferentes fins (negativos, é claro). Os conspiradores apontam até a década de 90 como onde tudo isto começou, quando na realidade existem registos que remontam a décadas anteriores. Qual é que é a resposta antagónica a todas estas ilações surpreendentemente (ou não) proferidas por estes teóricos? 1. Trata-se de condensação que resulta de uma libertação de vapor de água com origem na queima do combustível; 2. Tendo em conta valores de altitude, humidade, temperatura, os rastos podem ser mais ou menos persistentes; 3. Os valores decorrentes da medição das substâncias estão dentro dos valores esperados (e.g., alumínio, básio). Os chamados "chemtrails" apontam a esta libertação deliberada de químicos pois "eles" (uuuh) têm como objetivo o envenenamento da população ou irradicação de certas parcelas da mesma. Pode não se acreditar, mas estes relatos chegam mesmo a ter repercussões (e.g., manifestações; petições). Pergunto eu: trilhas da conspiração, ou da paranóia?

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08
Jan20

O que faz o veneno é a dose!

Hoje em dia vão surgindo inúmeras questões que subjazem à dicotomia químico versus natural, especialmente prorrogada pelos adeptos de um estilo de vida alternativo, diabolizando certos aspetos relacionados com estes conceitos. As várias petições para a abolição do Monóxido de di-hidrogénio (MDH) são um exemplo disso, onde as pessoas basicamente proibiam, sem mais nem menos, a água. De repente lembraram-se de inventar um nome complicado para a coisa (como fazem na maior parte das vezes) quando sabemos perfeitamente que esse MDH é composto por um átomo de oxigénio e dois átomos de hidrogénio (cheguem lá sozinhos). Infelizmente, assim são as campanhas de diabolização e de baixíssima literacia científica que percorrem muitas frações da população. Um outro exemplo é a grande campanha de medo que prolifera sobre os rastos dos aviões (supostamente libertações enormes de químicos nocivos, quando tudo pode ser simplesmente explicado segundo leis da física e da química).

Vamos a passos simples de compreensão? 

O termo químico pode ser definido em algo artificial ou sintetizado e constitui-se como um conjunto de átomos ou moléculas. O facto dos produtos serem chamados de "naturais", não quer dizer que sejam desprovidos de químicos. Vejamos: espécies de cogumelos; plantas medicinais como a dedaleira; a ricina; ou a toxina botulínica da qual se obtém o botox. Ou seja, a forma simples como se apresenta esta distinção entre químico e natural, não faz sentido e nem é suficiente para realizar qualquer julgamento.

Querem mais? Se pegarmos na definição básica que apresentei de "químico" chego à seguinte conclusão:  não há nada na natureza que não seja constituído por átomos e moléculas, ou seja, são inevitavelmente elementos químicos. Uma pessoa quando pensa que pode "abusar" do tratamento "natural" está redondamente enganada. Estes mesmos produtos ditos naturais têm princípios ativos que são substâncias químicas que provocam efeitos e cuja dose para além do recomendado pode ser tóxica. Nota: é claro que aqui já nem incluimos o Oscilococcinum feito de água e açucar. Com tantas diluições já nem se discute aqui a sua naturalidade!

E para quem considera que a medicina está de costas voltadas para o estudo dos benefícios das plantas medicinais, peguemos no exemplo da casca do salgueiro que é profundamente prejudicial para o estômago, apesar de analgésica e anti-inflamatória. Os cientistas acabaram por pegar no seu princípio ativo (ácido salicílico) e isolou o composto transformando-o em ácido acetilsalicílico com muito menos efeitos secundários. Espantem-se, foi assim que nasceu a aspirina que é só um dos medicamentos mais utilizados do mundo.

As substâncias químicas estão presentes em toda a parte. O que nos interessa saber é qual é a substância e qual a quantidade. Daí o título deste artigo se chamar: o que faz oveneno é a dose. Qualquer que seja a substância, tem o seu potencial letal. Umas substância são mortais com pequeníssimas quantidades, outras precisam de quilogramas para atingir essa dose letal. 

Ideia: nem tudo o que é apresentado como "natural" é necessariamente mais seguro. Por exemplo, os suplementos de amigdalina (substância presente nos caroços dos pessêgos e ou em algumas plantas - nota: promovida por "curas naturais") sujeitam o corpo a altas doses da substância que podem levar a intoxicação e entre outros efeitos secundários graves. Esta mesma amigdalina apesar de estar presente em alimentos, encontra-se em doses baixas e por isso é considerada uma ingestão saudável. Embora estes individíduos promotores apresentem ambiciosos objetivos (e.g., cura ou abrandamento de questões cancerígenas), os estudos cientificamente orientados falham consecutivamente nas replicações. Este é apenas um exemplo. A propagação destas ideologias podem formar verdadeiros casos de saúde pública, tendo em conta que as pessoas estão a agir de uma forma deliberada e não consciente e que na grande e largíssima maioria dos casos estas permissas apresentadas por naturalistas só não curam como realmente podem ser perigosas.

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05
Jan20

Explorar o mito dos 10%

Certamente já ouvimos todos falar de uma até bastante eloquente o seguinte: "só usamos 10% do nosso cérebro, imaginem quando descobrirem o que podemos fazer com os outros 90%". De uma forma categória e também eloquente digo: é um mito. Não se sabe muito bem a fonte inicial da propagação deste mito, mas é um facto que observamos na literatura alguns dados que foram sendo publicados com a apresentação desta ideia. Iniciamos em 1907 com William James num artigo publicado na Science, posteriormente citado em 1936 por Dale Carnegie's. Paralelamente coexistiu em alguns momentos a ideia de que os neurónios apenas constituem apenas 10% de todas as células do cérebro. Adicionalmente, temos a propagação destas ideias fantasiosas pela televisão, séries, documentários, revistas e filmes que ajudam a que um mito se multiplique como uma verdade (infundada). Infelizmente, toda esta argumentação é sustentada em nada, ou melhor, é sustentada numa "simples" falta de informação. Por conseguinte, vamos a factos:

-  Técnicas de observação do cérebro como o PET (positron emission tomography) ou o fMRI (functional magnetic resonance imaging) mostram que a maioria do cérebro não está em descanso. Ao longo dos nossos dias, cada parte do nosso cérebro é usada dependendo das diferentes atividades que vamos realizando.

De uma forma sucinta, importa refletirmos ainda sobre as seguintes ideias que nos levam a respostas esclarecedoras:

- se só usamos 10% do nosso cérebro, então o dano causado a determinadas zonas não deviam ter nenhum efeito. A neurologia em nenhum momento observa isso.

- de uma perspetiva evolutiva, é altamente improvável que tenhamos guardado ali um lugar para os tais 90% e que só tenhamos usado 10%.

- não só o PET, o fMRI mas também técnicas como o CT (computed tomography), mostram que mesmo a dormir não existem áreas que estão "desligadas"

- uma ideia simples: neurónios que não são usados, têm tendência a morrer.

Este é daqueles grandes mitos que muito para além de ouvirmos simplesmente o que os cientistas dizem sobre o mesmo, quase que basta só (não suficiente) refletirmos sobre algumas permissas da nossa existência.

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02
Jan20

Admirável Mundo Novo da Ciência

Para os verdadeiros céticos (que sabem a verdadeira definição da palavra), para aqueles que vibram com a Ciência e também para os que a conseguem valorizar de alguma forma, este é dos melhores blocos que eu já vi a passar num telejornal da noite. Num mundo em que, por exemplo, existem pessoas (gravemente desinformadas) a acreditar numa terra plana, que a vacinação contrai doenças e que os "químicos" são um ultraje para a sobrevivência [os exemplos são infindáveis, mas ia tornar isto muito assustador], existem os verdadeiros profissionais que contribuem efetivamente para o avanço do nosso mundo. São estes profissionais e nomeadamente a verdadeira Ciência que nos tem trazido e continuará a trazer as respostas mais exatas para os pequenos, médios, grandes e enormes problemas e/ou questões da nossa humanidade. Cada episódio vale a pena de ser visto. O nosso cérebro agradece. Eu cá senti os meus níveis de dopamina a subirem ligeiramente. Uma espécie de goosebumps, mas na massa encefália.

Link da Mini-Série: https://sicnoticias.pt/programas/admiravel-mundo-novo1

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02
Jan20

A Saúde Mental nas instituições de acolhimento

À medida que o tempo passa e os relatórios vão saindo dos mais diferentes contextos de análise, os dados tendem a não ser (de todo) favoráveis a um desenvolvimento sustentável do bem-estar da sociedade, atingindo também a fração referente às crianças e jovens institucionalizados. Neste âmbito, no final do mês de Dezembro de 2019 foi entregue ao parlamento o relatório da já habitual Caracterização Anual da Situação de Acolhimento que dizia o seguinte: em 2018, mais de metade (53%) das 7032 crianças e jovens que se encontravam institucionalizadas tinham expressões ou sintomas relacionados com problemas de saúde mental. Das 7032 crianças e jovens, 65% (4554) enquadram-se em grupos de alta vulnerabilidade. Um universo de 1593 crianças encontram-se a ter um acompanhamento psiquiátrico regular e 394 um acompanhamento irregular [1639 a fazer medicação psiquiátrica]. Em acompanhamento psicológico regular ou irregular encontravam-se 2720. Este relatório indica ainda que 3781 crianças e jovens desenvolveram problemas de comportamento, problemas cognitivos, ou manifestaram sintomas psicóticos e dependências. Realça-se ainda que o número de institucionalizados a beneficiar de casas de acolhimento especializado é ínfimo: apenas 97 em 2018 (94 em 2017). Por fim, a adição de drogas continua a ser um fator predominante em jovens entre os 15 e os 17 anos de idade, atingindo assim 78% deste conjunto de jovens em acolhimento.
Esta acaba por ser mais um espelho de uma realidade específica, onde se verificam novamente dados muito significativos e merecedores de reflexão pelas diferentes entidades responsáveis e influenciadoras (politicamente, inclusive).

Link da Notíciahttps://www.publico.pt/2019/12/31/sociedade/noticia/metade-criancas-acolhimento-problemas-saude-mental-1898888